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Fátima Trinchão
Poesias, Contos, Crônicas
Textos

VER E OUVIR ESTRELAS


                             Estava sentado à porta de sua casa, lá dentro a mãe mexia a panela com a sopa que preparava para o jantar de logo mais, no céu, as estrelas começavam a aparecer, algumas mais brilhantes do que outras, mas, todas pertenciam ao universo infinito e maravilhoso. O candeeiro de luz tênue, aceso na sala da casa modesta, composta de três pequenos vãos, mal dava para iluminar a sala e a cozinha contígua, separadas apenas por um móvel que era ao mesmo tempo armário e guarda roupa. O chão de cimento de vassoura combinava com as paredes com o reboco de chapisco, tudo muito bem cuidado, tudo muito bem limpo. Desde cedo que ele acostumara-se àquela hora, se sentar a porta da casa e olhar as estrelas, inicialmente, na infância, buscava contá-las, porém, percebeu um dia, a impossibilidade de tal empresa, mais tarde, com os primeiros conhecimentos de geografia, buscou então, a olho nu, a identificá-las de acordo com os mapas que a professor apresentara a ele e aos seus colegas em sala de aula; não logrou sucesso; ao final, concordou consigo mesmo, e somente e tão somente olhava as estrelas, buscando beber-lhes o brilho, enaltecer-lhes a beleza, amava-as e cada dia que vivia com elas, tornava salutar aquele convívio, que mais e mais se transformara em adorável aprender, pois, tudo na vida é aprendizado. Na infância, nos seus primeiros anos, a mãe realizava as tarefas domésticas e o deixava na porta de casa, sentadinho olhando a paisagem, olhando, como ela mesma dizia, o mundo lá fora. E o mundo lá fora era seco, ríspido, poeirento, muitas vezes, barro só, poucas vezes via-se tudo verde, verdinho, como a vida que ressurge vitoriosa em cada estação. No mais das vezes, a estiagem tomava conta daquelas bandas, a terra rachava, o rio seco, de dar dó, deixando no seu leito, somente lama, que muitas vezes era disputada por gente e animais; os bichos magros que não aguentavam nem a caminhar, as pessoas destituídas dos bens materiais e sobretudo, de esperança. Foi aquele mundo que ele viu, desde a infância, por vezes, sentadinho no batente da porta, a mãozinha no queixo, via lá embaixo, no horizonte, a poeira a levantar-se, era o tropel dos cavalos dos homens que vinham da cidade ou de algum povoado próximo, traziam pequenas mercadorias, e às vezes, passavam perto de sua casa, levantando ainda mais aquele pó, que, mesmo em momentos de grande paradeiro de gente, teimava em remexer ao simples assoviar de uma brisa passageira vinda de distancia maior ainda, saída das mãos de Deus, para amansar aquela quentura terrível que insistia em permanecer, elevando a temperatura, para um abrasamento cada vez maior, e durante o dia, principalmente rente ao meio dia e diante daquele sol que fervia, ninguém podia ficar do lado de fora não. Ali naquela casa, era a porta aberta todo o dia, o dia inteiro; o fogão a lenha, provocava no ambiente maior calor, e a permanência ali, era quase que insuportável, , uma agonia acometia a todos, desejando que o sol baixasse e permitisse uma brisa, mesmo que tímida, mesmo que de leve, mas, uma brisa que amenizasse aquele calor intenso. Há poucos metros de sua casa, alguns pés de mandacarú resistiam bravamente a falta de chuvas. Foi assim que começou a conhecer o mundo lá fora, de quando em quando um gato ou um cachorro magro passava por ali, mas só de quando em quando. As casas mais próximas distavam alguns metros, e ali naquela paisagem a sua se perdia, entre a caatinga aqui embaixo e o azul do céu lá em cima, muitas vezes, sem uma nuvem sequer. Foi esse, o seu primeiro contato, com o mundo lá fora.

- Já é de tardinha, o sol já amansou, vá pra porta, tomar uma fresca...vá ver o mundo !

Era assim que sua mãe lhe dizia, ou então lhe lembrava:

- Oia,tá na hora.....vá tomar sua fresca...

          E assim ia vivendo, o tempo passando e ele crescendo,quando já estava firme das pernas, começou a ajudar os pais na lida da roça , tinham um pequeno terreno no fundo da casa, que plantavam e quando colhiam, separavam o que para si e a maior parte vendiam na feira, isso quando chovia, quando não, esperavam a ajuda do governo e rezavam, rezavam de todo o jeito e em todos os cantos,rezavam nas missas das igrejas,rezavam nas novenas, rezavam nas casas,rezavam nas praças, rezavam na feira, todo rezavam só ou juntos em busca do mesmo objetivo,até que a chuva vinha e trazia de volta campos verdes e prosperidade . De déu em déu, vinha um caminhão pipa abastecer com alguns litros de água, aquela população sedenta, mas depois, sumia e o jeito era pegar o facão e cortar a folha do mandacaru para dela extrair a água do consumo diário. E ali, no meio daquele ermo, naquele fim de mundo de meu Deus, ia-se criando. Escola só depois que ficou grande, mesmo assim, só uma vez ou outra, faltava, tinha que caminhar muito na escuridão,por dentro do mato, não tinha transporte coletivo, com tanto cansaço no corpo, depois de trabalhar no cabo da enxada o dia inteiro, os braços doloridos, nem dava mais vontade de nada, nos dias que ia,quando chegava na escola, a noite, tentava abrir bem os olhos para ouvir a explicação da professora,mas, o cansaço era mais forte e o sono lhe pegava no meio da aula, mesmo assim, com todas essas dificuldades, aprendeu a escrever o seu nome e a resolver as quatro operações básicas de matemática. Depois do terceiro ano primário, abandonou a escola, já não era mais possível conciliar o trabalho na roça e as aulas à noite, mas, o que ele gostava mesmo era das aulas de geografia, quando a professora falava dos rios, das matas, dos campos, do céu e das estrelas. Era o único momento em que ele ficava atento, ficava bem alerta. As estrelas... ah, as estrelas! Acostumara-se a observá-las desde bem pequenino, era a sua distração quando sua mãe lhe mandava ficar sentado à porta, a olhar o mundo. E o seu mundo era aquele, o agreste empoeirado e o céu iluminado por aquelas estrelas que piscavam e brilhavam como diamantes infinitos e inacessíveis a cobiça humana e ao lado das delas, a lua, guardada por São Jorge e seu cavalo fiel, embora a professora lhe explicasse bem e muito bem, mas não entrava em sua cabeça aquele mistério extraordinário de como as estrelas e os astros, principalmente o sol, ficam ali suspensos sem cair em cima da terra, era bonito demais, é coisa divina, que só Deus mesmo...ele pensava e matutava, matutava em sua mente esse grande mistério, que por mais que a professora, com todo o seu conhecimento, lhe explicasse, mas não entrava em sua cabeça, e ela ainda dizia que a terra gira em torno do sol.....como é que pode?

- Eu hein...a professora é dona de muito conhecimento, mas...esse povo tem cada uma...como é que a terra gira e a gente não se sente tonto ? As coisas não caem e nem saem do lugar....

E a professora pacientemente, repetia para que toda a turma não levasse dúvidas para casa, inclusive ele,

- É professora, pra mim é difícil de entender....

                       E assim, sem entender, afastou-se da escola, não gostava de provocar forrobodó, mas, ensimesmado, procurava aceitar, mas, as respostas não ...., além daquele cansaço, que o mourejar era muito grande e não permitia que ele ficasse atento durante toda a aula, muitas vezes,debruçava-se sobre a carteira e dormia, quando um colega o chamava, alertando-o de que a professora fazia a chamada por ordem alfabética, e ele sonolento respondia, de forma arrastada:

- Presente ‘fessora....

     Logo após ele pegava mais que rapidamente o seu mocó, onde guardava o caderno e o lápis e mais que depressa retornava a casa. No dia seguinte teria que acordar s cinco horas da manhã, e recomeçar, também aquela luz mortiça do candeeiro da escola não ajudava ninguém, ao contrário, tinha que abrir bem os olhos a ver o que estava escrito no livro e no quadro negro.

       E dessa forma ele ia vivendo, dia lá, dia cá, ele homem feito e seus pais mais cansados, já chegando a idade, beirando a velhice e ele ainda mantinha o costume de ao entardecer, após a labuta na roça e na feira, sentar-se à porta de sua casa para tomar uma fresca, olhar as estrelas, conhecendo o mundo. Conhecer o mundo, é bem verdade que, já conhecia um pouco, assim como também as pessoas, mas nada, nada, nada no mundo igualava ou igualaria àquele momento em particular, quando conversava com as estrelas, quando olhava e apontava para cada uma delas, agora já, suas velhas amigas e confidentes que lhe orientavam a cada nova empreitada, a cada revés, parecia que não existia céu mais bonito do que aquele. Estivera é certo, alguns dias, na cidade grande, com uns parentes distantes, mas, o que é aquilo? Que zoada, que loucura! Saltou do ônibus na rodoviária moderna, ampla, espaçosa, cheia de lojas, boxes que vendiam toda sorte de bugingangas, lanchonetes, lanchonetes de nomes estranho; e que comida sem graça...Quanta gente caminhando ao mesmo tempo, que confusão! Ônibus, carros, aviões, metrôs... . Ali naquele seu lado, seus pais, aproveitavam a chegada da noite e iam dormir cedo, e cedo ele aproveitava para apagar o candeeiro e assim dessa forma, só a luz da lua clareava a casa, principalmente quando era lua cheia, que iluminava tudo, parecendo um dia, e sua alegria era maior, pitava um cigarro feito com um punhado de tabaco, enrolado na palha do milho e ficava ali, em pleno silêncio, sozinho, ouvindo as estrelas. Quando em algumas noites muitas estrelas passavam céleres no céu, cadentes, era costume na roça, fazer-se um pedido, e ele fazia, e todos os seus pedidos eram atendidos, e seus pedidos falavam de chuvas, de fartura, de prosperidade para todos, de amores vívidos e fortalecidos, de demandas resolvidas. Ficava ali, por vezes incontáveis, até as primeiras horas da madrugada, quando enfim, buscava o rude catre, para descansar o corpo franzino do trabalho diário, onde o suor escorrido, era compensado através dos frutos colhidos, no labor do dia a dia. No dia seguinte, começaria tudo de novo, até chegar a noite, aquele momento ansiado, e mais uma vez, olharia as estrelas. O povo achava que ele era louco, um mané, e sua mãe comentava com as amigas:

- Esse menino...não sei o que é que ele tem na cabeça não...só quer ficar assim, olhando pra riba, o tempo todo, lá pro céu... diz que oia pras estrelas....

- Deixa lá muié, se é assim que ele gosta, deixa lá ele...

    E ele ria sozinho, consigo mesmo, gostava daquela loucura, demência como dizia o povo,mas, depois de tantos anos vividos mirando as estrelas,aprendeu a decifrar o seu brilho, a ansiar por suas respostas e a trocar com elas idéias e pensamentos, e àqueles que duvidavam da sua sanidade, recorria aos versos do poetas Olavo Bilac, quando ele, também admirador delas, expressou nos versos do poema Via Lactéa: "Ora, direis, ouvir estrelas? É certo, perdestes o senso (...) E eu vos direi: Amai para entendê-las, pois só quem ama pode ter ouvidos, capaz de ouvir e entender estrelas”. Enfim , é esse o grande segredo, acessível a todos, basta ter olhos para ver e ouvidos para ouvir.




























 
Fátima Trinchão
Enviado por Fátima Trinchão em 24/08/2014
Alterado em 26/12/2014
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