Fátima Trinchão
Poesias, Contos, Crônicas
Textos
O MESTRE



                                             O MESTRE

        Todos os dias , ao abrir as janelas frontais de nossa casa para receber o ar puro de mais uma manhã que começa e ouvir o passaredo alegre anunciando o novo dia, via-o passar, valise de cor preta em uma mão, livros em número de dois ou três na outra mão. A calça social, sempre bem passada e infestada, geralmente de cores sóbrias, entre o preto, o cinza e o azul-escuro, davam-lhe um ar grave, muito embora, acredito, aparentasse ter entre cinqüenta e cinco e sessenta anos, um ar senhoril já lhe rondava as faces e as rugas na testa, deixando antever, a quem não lhe conhecia ou conhecera mais de perto, os questionamentos existenciais que, de quando em quando nos assaltam. No rosto, um olhar inteligente, firme, perscrutador, e sempre ao fundo, um quê de bondade, de compaixão, de solidariedade...aquele algo mais que move os grandes homens, que são capazes até de transportar montanhas, se tiverem fé. A testa já larga, alargou-se mais, devido a uma calvície que já se anunciava, deixando-lhe “entradas” em ambos os lados. Um dia, ao vê-lo passar tive a necessidade de perguntar-lhe algo, talvez movida pela curiosidade. Não o fiz. Soube tempos depois, através de terceiros, que amava muito os livros e empregava horas e mais horas sentado nas bibliotecas da cidade, freqüentava as livrarias, os “sebos”, os círculos de discussões, acompanhava avido as notícias das descobertas...Estudioso buscava respostas, mas, ao mesmo tempo trazia grandes indagações, sabia também que todas as perguntas, quando não respondidas já, encontram no decorrer do tempo, suas respostas, ou se dúvidas existirem, suas confirmações ou negações. Ão é sem motivo, fundamento ou razão que os mais antigos dizem que “O tempo é o melhor mestre” e a vida certamente, a melhor escola ! Os óculos, modelo tradicional, tinham um grau muito forte, decorrente, com certeza, de sua necessidade de estar sempre estudando, atualizando-se. Admirava-lhe a expressão, a sobriedade, a discrição, deveria ter por profissão algo que amasse e a ela se dedicasse profundamente, deveria ser um grande profissional. E nessas elucubrações, fui viajando por um bom tempo, mas, a azáfama da vida solicitava a minha presença e retornei os pensamentos e ações ao momento presente e pessoal. Precisava sair e cuidar dos meus afazeres, que no lufa-lufa da vida, não eram poucos nem menores, e eu não poderia dar-me ao luxo de ficar divagando sobre a vida alheira. Um dia, levou-me o acaso a visitar uma tradicional instituição de ensino, com a finalidade de concluir pesquisa sobre comportamento juvenil em sala de aula. Lá chegando, recebeu-me nobre senhora, cujos cabelos grisalhos e sorriso sincero, fez-me lembrar as fadas, doces madrinhas que tanto povoaram a nossa infância. Seus olhos de um brilho sincero, fitaram-me generosamente. Soube, no decorrer de nossa amizade, que tinha, por aquele solar e sua história interesse e dedicação tal, por tudo que ele representava; a sensação que tive, ao vê-la é a de que se tratava de uma pessoa rara, dessas que, só de quando em quando, temos o privilégio de conhecer. Recebeu-me de braços e sorrisos abertos, e usando de um misto de franqueza e bondade, disse-me:
-    Minha filha, seja bem-vinda, mas, os tempos mudaram e muito, hoje temos em nossas classes alunos com as mais diversas necessidades, as mais diversas
carências...Lutamos contra muitos desses obstáculos e os nossos professores, são e sempre foram os mais profissionais, mais dedicados, amorosos e compreensivos dentro das limitações possíveis....aplicamos aqui, a melhor das metodologias, a metodologia do amor. Aquela que não falha, muito embora seus efeitos possam surgir um pouco mais tarde...tarde sim, mas não, tardiamente.
        Ao ouvi-la, lembrei-me dos tempos em que as pessoas ao referirem-se aos professores de todos os níveis, o faziam com consideração e respeito. Perpassaram-me pela mente, como num átimo, esses tempos gloriosos e para emblemáticos. Perguntei-lhe como que ávida de respostas e de aprender com quem tão gentilmente se dispunha a ensinar-me:
- A senhora acredita, que nos momentos em que vivemos, existe uma esperança de mudança ? De melhora ? Em algum momento será retomado o respeito ao profissional que dá tanto de para a grandeza de outros ?
A nobre senhora olhou-me bem nos olhos, lá no fundo, como a buscar algo que nem eu mesma sabia o que era, talvez a esperança e nobremente responeu-me com outra pergunta:
- Você tem fé ?
- Sim, tenho fé, afirmei-lhe.
- Se você tem fé, então terá a resposta. Não há como escapar-se das inovações e dos problemas que os novos tempos trazem consigo, mas é possível, posicionar-nos contra ou de acordo, isto, só depende de nós, e, se não concordarmos com isto que é, teremos de lutar com as armas do amor, da razão e da lógica para mudar e fazer o que deve ser. Venha cá, veja que lindo este solar...
    E dizendo isso, pegou-me pelo braço, convidando-me a ir até a calçada em frente ao solar.
- ...abrigou gerações e gerações de jovens esperançosos e ávidos pelo porvir, mestres idealistas, cônscios de suas responsabilidades, alegres, idealistas, cidadãos que, forjados aqui, levaram para a sociedade, o que aqui aprenderam e tornaram os mestres e seus ensinamentos eternos, o que nós não podemos, é sequer pensarmos em desistir.
       O Solar no qual estávamos e ao qual se referia a nobre senhora era, uma tradicional e secular instituição de ensino, em suas salas foram formadas dezenas de gerações, cujos nomes, dali saíram para a participação e colaboração na sociedade em que viviam, em todos os seus ramos, incrustando os seus nomes no painel social de cidadãos dignos que honraram e honram a sociedade em que vivem. Dezanove janelas permitiam a entrada de ar e iluminação natural, sem que fossem necessários os recursos de iluminação da moderna tecnologia, na parte superior da entrada principal estava incrustado altaneiro e imponente o símbolo da instrução pública, onde constavam dois ramos de oliveira e um candeeiro com a luz do saber e a inscrição latina: lux. Respirei fundo, árvores centenárias rodeavam o velho solar, testemunhas mudas de grandes alegrias, o sol jogava sobre nós os seus raios quentes, como uma carícia das manhãs; estendi meus olhos e busquei,através deles, absorver, os detalhes do casarão; busquei imaginá-lo no início dos seus passos até os dias de hoje, e assim fazendo-o, vi passar nos corredores, meu velho amigo de todas as manhãs, e mais que depressa, virei-me e perguntei à minha nobre acompanhante:
- Aquele senhor...aquele senhor, que passou ali, aquele que vai ali....
 - Ah! sim, o professor Borges ?
 - Sim,, é aquele senhor...Eu o vejo passar todos os dias...
-  Ah! Ele é professor da casa há muitos anos, um professor dedicado como todos os outros: inteligente, entusiasmado e fiel aos seus ideais, um grande profissional. Está entre os melhores do estado...do estado não...entre os melhores do país...você o conhece ?
-  Mais ou menos, respondi-lhe.
   Parei e assisti, do lado de fora, meio curiosa, um pouco indiscreta a aula do professor. Com seus alunos o professor transformava-se. Ali dentro da sala de aula, os seus olhos expressavam alegria, felicidade, harmônia, realização. Minha interlocutora, ao meu lado, curisa, observava-me e asseverou:
- Se você quiser saber algo mais sobre a instituição, sua metodologia, sua história...estou a sua disposição...bem, desculpe-me, mas, preciso retomar minhas atividades, fique a vontade.
       Agradeci-lhe tão simpática acolhida e reparei-me para iniciar a minha jornada de trabalho. Durante o temo em que lá estive, conheci e conversei com todos que ali exerciam algum mister, sempre muito simpáticos e atenciosos, permitiram-me enveredar pelos caminhos que a curiosidade exigia. Lancei-me à busca de documentos e depoimentos que pudessem substanciar os nossos estudos. Agora pude ver que o nosso amigo das manhãs chuvosas ou ensolaradas, que passava quase sempre com livros à mão e cônscio de sua responsabilidade, era um mestre, um grande mestre, desses que encheriam de júbilo e orgulho qualquer nação; não só ele,mas também, a minha nobre amiga, de quem terei lembranças perenes. A energia que emana da juventude e o idealismo de todos os que no solar mourejam, fazem daquele local, um lugar especial, único, sem igual, quase sagrado. As alamedas que o rodeiam enfeitam-no com generosidade rara, e os pássaros testemunhas radiosas de todas as manhãs e tardes, brindam-nos com cantos maviosos e convidativos ao estudo e a meditação. Sempre me perguntei por que o Mestre Jesus, quando da sua peregrinação pela terra, escolheu ensinar pregando em parábolas, e n'Ele encontro as repostas quando do Sermão das Bem – Aventuranças:”Bem-aventurados os pobres de espírito, bem-aventurados os que choram, bem-aventurados os que são brandos e pacíficos, bem aventurados os que têm fome e sede de justiça...porque serão consolados, porque herdarão a terra, porque serão saciados, porque alcançarão misericórdia, porque verão a Deus, porque deles é o Reino dos Céus.” As regras básicas de comportamento moral ditadas pelo grande mestre, permanecem nos guiando até hoje, e são transmitidas para as gerações futuras por aqueles que, como educadores, buscaram seguir as pegadas do Doce Rabi. Agora e sempre, bem-aventurados sejam eles.





















 
Fátima Trinchão
Enviado por Fátima Trinchão em 22/11/2008
Alterado em 26/12/2014
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